domingo, 29 de maio de 2016

Olhos Limpos


Quantas cores ecoam
de uma folha seca?
Qualquer resquício que caia
de árvore alguma
será transformado
em matéria prima,
assim na Terra como
por sob a pele da alma do poeta,
que busca manter-se adequado e ativo
em seu ofício diurno de jardineiro
Todos os restos
varridos por um só – adubo
Sonho de um mundo novo
de microrganismos,
pós-putrefato

O que está em declínio
converte-se
em ascendente

Nunca sentir que se é
desperdício de tempo
Pois todo o trabalho, toda a nuance
é chance de epifania
E nenhuma quebra de expectativa
é vista como desventura
Até que se alcance a coragem que leva à virtude
de fazer do estudo – ofício, e do ofício – virtude
Virtude que, quanto mais se usa, mais se lapida

A obrigação do poeta:
Reparar num instante que,
sob luminosidade específica,
todas as cores ao redor
atingem certa
equalização sonora,
que me traz lá do Eu
e me rasga o peito,
me aflora e me cura
numa projeção fractal
Ordem oculta revelada
em dobro
através do caos

Contemplar essa música visual
com os olhos limpos
antes de varrê-la,
abrindo espaço para novo acorde
Sem se perder
no reter-retratar
da visão, afinal,
a Grande Beleza
nunca é expressa com perfeição
por mão humana,
como diria José Velasques
A vida em cada detalhe
é divina, mas sempre profana
é a tentativa da reprodução
de sua totalidade

E quando eu desejo parar de varrer com o rastelo
para observar o repertório da natureza
numa tela aleatória
que nasce noir
para que eu pinte no eterno
com a imaginação – eu paro e observo
Perco o emprego,
mas não
a Graça

E quando, em plena aula, me vejo esboçando
um desenho qualquer – eu deixo vir e traço
Perco conteúdo, mas me recarrego
Sou cocriador de minha atmosfera

Renascimento é renúncia ao que não mais me plasma
Cortando cordões que nos ligam ao passado

É através do umbigo que sou poeta
Aceito o que recebo, e isso basta

Somente admito
o que está à minha espera

Ah, âmago meu!
Quanto menos arranco-lhe as pétalas,

mais bem me quer


O Fracasso das Coisas Simples


"É hora de os escritores admitirem que nada neste mundo faz sentido.
Só os tolos e charlatões pensam que sabem e compreendem tudo.
Quanto mais estúpidos são, mais amplos supõem ser seus horizontes."
Anton Tchekhov

        Conselho – rima com – calhorda. Rima com placa, com muro pixado. Dar conselho é uma puta falta de respeito, às vezes. Essa é a real.
        Diz o pajé, “Na hora do silêncio, é difícil disfarçar”. O Mar é o maior conselheiro. Fala através do silêncio. Quando o raciocínio para, o coração brota. É pelo vazio que o Mar me limpa. Leva o que há de retido e permite que eu fale comigo mesmo. Proporciona-me o espetáculo natural de se encarar o Oráculo, sem mais tanta obstrução de um ego falso e apodrecido.
        Dá medo. É preciso muita coragem para ser – peito aberto e Olho receptivo. É bem mais fácil trabalhar e comprar uma crônica de autoajuda. E não estou cá sendo sarcástico.
        Talvez um bocado.
        Mas o Mar eu busco onde eu quiser. Insisto nessa causa. Fecho os olhos e aguço os tímpanos à minha Pineal sempre ouriçada, brilhante. Uma Lua dentro de mim. E não dizia o Velho Mestre, “Conheço Deus e o mundo, sem olhar pela janela”? Sim!
Para onde essas ondas retornam? Para dentro de si mesmas! Por isso, tão impressionado em contato com essa imensidão que me respeita tanto. Porque, constantemente retornando, em busca de sua própria Origem, as ondas do mar me ensinam pelo exemplo, e não pelo medíocre, pensado, profano julgamento. O Mar não me julga. E, assim, me VÊ.
        O Mar me lapida. Renova minhas as ideias, levando, para além do ilusório horizonte, teorias, crenças, concepções de realidade. Afasta minhas sombras, deixando-me de frente para o meu próprio reflexo. Nítido. Terrivelmente belo. O Mar e eu. O Mistério encarando o mistério.
        Por isso que dá medo. Nada mais cruel que a compaixão. Mas hoje em dia a moda é não ser assim tão puro. É ter ética, cidadania, pena, bondade, cultura... Nada mais surreal que o Mar – que permite o caos e assim é Ordem, que me recicla, me arranca as máscaras, suga a minha arrogância e meus pré-conceitos. Que medo que eu sinto de me dissolver nisso tudo. Que medo que tenho de deixar de ser quem eu penso que sou.
        E agora, um conselho – enfie os dedos nos ouvidos. Só ao ponto de sentir aquele tampão mágico. Ouça com atenção ao SOM Cósmico. É ou não é o reflexo do Mar aqui e agora? É o seu apito! Seus sinos! Som que me inunda o cérebro quando volto para dentro de mim! Vem ou não vem de dentro de mim, o chiado e o murmúrio constante da vida em mutação?
        Aliás, com uma bobagem de conselho assim eu não irei parar no café da manhã de trabalhador algum. Ninguém dirá “Nossa, que belo conselho, hein?”. Para tal, eu deveria ser mais calhorda e mais sensato. Mais culto. Ninguém dirá “Bah! Que bacana esse cara dizendo que é para eu fechar os olhos e calar a boca! Que legal! Acho mesmo que vou vender tudo que tenho e dar aos pobres! Isso é que é realização de vida!”.
        Só que eu não quero um textinho que ajude a ser feliz! Quero é sondar as depressões da Terra. Não é por desespero que acesso aos poços profundos da humanidade, aliás, é por Esperança. Enquanto um no mundo estiver afogado, todos inspiramos agonia. Não quero um incentivo, um abrigo, que me faça esboçar um sorriso amarelo. Quero é um desconselho, uma boa questão que me puxe o tapete! Quero sentir o magnetismo da rocha na sola do pé. Enquanto um no mundo estiver com frio, todos temos pressa. Não quero letrinhas que confortem, rechacem! Quero é o arroubo, quero o ronco do vazio! O silêncio ensurdecedor do ouvido tampado. Enquanto um no mundo estiver com fome, fome.
        Pior que não consigo me conter de expor uma opinião mundana e atual. Estamos, mais do que nunca, vivendo a inversão completa de valores. O fracasso das coisas simples. Quanto mais idiota – melhor. Quanto mais egoísta tu é, mais sucesso, e mais orgulho sentem teus pais. Quanto mais genial e genuíno é o filho, mais insatisfação. E dizia o rasta, “Many people will fight you down, when you see Jah Light”. Se tu não é assim tão idiota, cuidado com eles. Não tenta expor ao Sol quem dorme profundamente na escuridão. Há de ficar indignado...
        Então tá, outro conselho – Vai comer aipim orgânico! E broto de feijão da Família Hattori! Talvez assim tu compreenda enfim que bons conselhos não vêm com código de barra.
        Mas receio que possa parecer estranho que eu queira ocupar a atenção de um leitor sério falando sobre o poder da ausência de palavras. Te mandando enfiar os dedos nos ouvidos. Exaltando a terapia do silêncio. Que é de graça. Só que – o que há de estranho nisso? Não prescrevem umas senhoras em jornais e revistas umas crônicas com opiniões e conselhos de que ninguém precisa? Isso não é estranho? Pois eu imito as senhoras. Quem sabe, até eu mesmo sou uma senhora cronista e só me oculto aqui sob um pseudônimo masculino.
        E não me leve a sério. Eu sou uma bobagem. Aliás, nesse parágrafo anterior eu imitei o Tchekhov. Despudoradamente.

"Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico.
Hoje, até o gênio se finge de imbecil.
Nada de ser gênio, santo, herói, ou simplesmente homem de bem.
Os idiotas não os toleram."
Nelson Rodrigues


sábado, 29 de novembro de 2014

O Exorcismo


“A think of beauty is a joy
For ever, Keats exprimiu.
Mas ele próprio sentiu
Quanto essa alegria dói.”
(Manuel Bandeira)
Disse Rabindranath Tagore, “o homem adentra na multidão para afogar o clamor de seu próprio silêncio”, e creio que faz sentido. Eu não tinha algo importante para fazer, e inventei de ir no centro, não lembro para quê. Faz tempo já, esse episódio. Mas, como história, nunca foi tão atual.
Cruzando a Rua da Praia sempre tem coisas interessantes e bizarras acontecendo. Mas eu nunca ia esperar uma coisa daquelas. Eu vinha caminhando, e, enquanto me aproximava daquele pintor, comecei a ouvir ele dizendo “se uma máquina fotográfica pode fazer isso com imagem, como que eu não poderia com sentimento? Eu vou aglutinar tudo que vocês estiverem sentindo de negativo, vou revelar tudo nessa tela, mas ao inverso. Tudo, culpas, medos, dúvidas, me deem, que eu vou transformar isso tudo, gente”, e tinha uma galera rindo do cara. Ele era meio engraçado mesmo, mas meio soturno, baixinho, magrinho, e bem moleque, devia ter no máximo dezoito. Ele tinha um algo estranho, algo comovente, um magnetismo, sei lá. Dizia tipo assim, “qualquer pecado, qualquer coisa que esteja iludindo vocês vai vir parar nessa tela, certo? Eu vou agora exorcizar qualquer sombra que esteja nublando a clareza de vocês, certo?”. Nesse momento, muita gente riu. A palavra “exorcizar” é engraçada por natureza. Eu ri também.
E se calou. Desde o seu primeiro traço, qualquer alma viva ao redor começou a sentir um troço estranho. Dava pra perceber direitinho. Todo mundo pareceu ficar meio abalado, meio perplexo. Eu sentia uma sonolência, com um misto de atenção superapurada. Muito paradoxal. Comecei a exalar uma coisa boa, mas me sentia triste, muito triste, e olhava para os lados para fugir daquele silêncio ensurdecedor que me tomava, e via que estavam todos irradiando aqueles mesmos sintomas. Ele pintava um negócio abstrato, parecia traçar símbolos dentro de símbolos, a imagem não dizia nada, apenas círculos, triângulos, quadrados, e mais círculos. Mas não era o quê ele fazia, e sim como ele fazia. Tinha alguma coisa querendo sair de mim, lembro nitidamente disso, e eu comecei a voar por um mar de emoções, até raiva daquele moleque eu comecei ter, mas logo eu estava entregue. Bem tinha começado a pintar, e logo um velho começou a chorar, e um outro cara também, e logo umas tias se desataram. Só sei que na hora eu sentia uma dor irresistível, não era uma dor ruim, era simplesmente inevitável, algo que já estava em mim, e tinha de vir à tona de qualquer jeito. Quando eu vi, eu estava chorando rios. Todo mundo à volta estava. Eu cheguei mais perto do guri. Tinha muita expressão no rosto. Abertura, magia. Realidade. Ninguém estava entendendo nada, mas era incontestável, o que estava ocorrendo.
E eu sentia que aquilo era um pouco culpa minha, tudo que se passava no mundo, toda a dor da Terra, tudo um pouco culpa minha, mas não era uma coisa pesada de se sentir, não, era uma culpa gostosa,
culpa que já nasce morta, aniquilada pelo perdão,
as lágrimas lavando nossa alma
de dentro pra fora,
sem esforço, sem demora,
aquela dor sendo abraçada e adorada
por todos, uma dor nossa, que dor boa de sentir, de dividir, de compartilhar sem pesar nem escrúpulos, todos juntos no mesmo rio, navegando no mesmo globo andante, o mesmo futuro, todas as lamúrias do mundo, uma só lágrima, uma mera gota d’água, uma expressão primordial, uma mistura de – licença – desculpa – obrigado – de nada – bom dia – eu te amo – plena conivência e reciprocidade, que dor necessária de admitir, todos irmãos, todos responsáveis, tudo que a gente faz influencia nossa Mãe, a culpa é – sem dono, o amor também, somos um só desejo, uma só vontade, assumindo juntos tais pesares,
dissolvemos tudo, ao máximo que se possa,
com profunda devoção e arte,
toda essa água é nossa,
e nosso
é o fardo da humanidade,
a gente pode mudar, nada é obrigatório, é possibilidade, chance, Vida, se o Pai impusesse ordens, que tipo de irmão seria eu? Se não fosse o Seu Silêncio, eu não te amaria tanto.

E, quando o vi assinando aquela obra, que era de todos e de ninguém,

pude ler, claramente – para sempre, José Velasques.


domingo, 1 de abril de 2012

Despretensão



O negócio
é tu
não olhar pra borboleta
E ela vem e pousa
na tua testa
A ambição impede
que a Obra
seja completa
Se tu deixar a borboleta ali, pousada, na dela,
tua mente se aflora em dez mil pétalas

Se tu quiser meter a mão no ouro
tu até chega a atingir certo poder,
mas tende a morrer na praia,
queimado
Pois é
Portanto,
Ofereça logo ao Fogo
este seu foco desmedido e insensato

Tem-se de estar meio disperso
para conceber o último passo
Paraíso revelado
aqui e agora

Sabe, aquele momento
em que a pipoca
vira do avesso?
É a hora
em que
se esquece do êxito

Deixa voar!
Não seja assim tão curioso
Deixe que vá,
sem pensar no retorno
Quando estiver quase lá,
a um detalhe de alcançar o auge,
simplesmente aguarde...

Verá que a Grande Obra
realiza-se por Si só