sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

"Mendigo"

De cá do viaduto, admito – minha fotografia é esta: a cidade toda em preto e branco, e, dessa perturbação noir, brotam dois olhos verde-claros, imparciais, cristalinos.
Não havia nascido mendigo, não. Renunciara à sua condição sociocultural, para viver em pura mutabilidade, e seu passado foi se apagando, aos poucos. Às vezes, no início, alguém passava e comentava “Caramba! Virou mendigo, o fulano!”, mas logo já ninguém se lembrava do nome do fulano, e assim era como se nunca houvesse existido fulano algum. Escrevia qualquer coisa em um papelão, “Deus te ama aqui agora”, e tal, ninguém ligava. Às vezes a vida o lançava de cá para lá, como faz o vento com as folhas secas e os lixos leves que voam ao léu. Errava pelos labirintos do Centro, Andradas, Mauá, Matriz, mas logo acabava voltando para a marquise da Borges, como que por acaso. Tempestades, pulgas, feridas, pivetes, frio, tudo passava, nada de mais.
Até que uma dessas artistas muito modernas passou por ele e o conduziu a um cubículo envidraçado.
Quando, durante a madrugada, a moça havia descido do carro com mais três pessoas grandes, falando com ele por meio de gestos e palavras curtas como se ele fosse um ET ou um doente mental, ele já percebia que estava prestes a sofrer uma mudança brusca, mesmo. Não sabia direito para onde estava indo, não tinha o costume de tentar prever o que seria de si “em breve”, mas também não costumava resistir a nenhum empurrão.
O mendigo estava então entre três paredes de vidro e uma cortina negra por onde ia fazer suas necessidades, o que demonstra que ele não era louco nem nada, apenas indigente. Sempre tivera vergonha na cara, ademais, fora a vergonha na cara que o fizera miserável.
As outras obras de arte expostas não eram menos ousadas que o “Mendigo”, mas essa obra em particular ganhava a atenção do público, talvez por ter como matéria-prima um ser tão diferente de nós, intelectuais.
De cá dessa escada, admito – minha fotografia é esta: todas as obras bem compostas, bem arranjadas, e um homem vazio, jazendo sem cor alguma; seus olhos estão fechados, sempre, mas ele respira. Agora ele tem um sentido em viver, e isso o açoita. O mendigo agora é o “Mendigo”. Faz grande sucesso, algumas pessoas chegam a parar e ficar ali por um bom tempo olhando para ele, comentando as mais variadas loucuras interpretativas, analisando, comparando entre si suas loucuras.
Ele nunca pensara que viria a ser prestigiado assim.
Só que não era a obra, em si, que todos contemplavam. Eram suas próprias interpretações. Ele não ganhava nada com isso, nem um humilde olhar de “olá”.
Não havia mais carvão ou papelão para se expressar, nem para onde voar com o vento. E, quando aquele relâmpago lhe bateu no ventre numa dor extasiante, ele lembrou-se de que não estava se alimentando. Antes eram geralmente umas velhinhas que cuidavam dele.
Fazia muitos anos que ele não sentia o medo de ficar sem ter o que comer. Era uma exposição muito moderna, havia diversos empregados; houve um tradicional deixa-que-eu-deixo, e todo mundo se esqueceu de que aquela obra de arte era de natureza ainda viva. Nem mesmo a “autora” se deu conta da necessidade de manutenção de sua instalação artística, e ela não alimentou com pão e água sua obra, o “Mendigo”, que agora, sim, sabia o que era fome, ao tempo em que ganhava aspas e letra maiúscula em seu nome.
Arregalou bem os olhos verdes e começou a falar, gritar, gesticular, mas quanto mais ele explodia mais o público ficava fascinado, achando que aquilo era parte do show. Foi se retraindo, voltando aos poucos para dentro de si. Sentou-se num canto, e esperou.
Até então, ele achava que conhecia a miséria do Homem. Mas, dias depois de passar a ser o centro daquele espetáculo, o “Mendigo”, obra de arte, morreu. Todos acharam muito lindo quando sua pele ganhou tons de cinza, e logo tons de púrpura, e foi ficando toda azul e enfim verde. Mais verde. Alguns interpretavam aos gritos, “Foi sede!”, outros aclamavam “Isso que é arte!”, outros diziam “Foi solidão”. Morrera de olhos fechados, pura metalinguagem. Começou a se inchar mais e mais, enquanto seu corpo se alimentava do próprio corpo, que emanava aquela aura soturna da vitória bacteriana. Quando ele estava todo bem verde, definitivamente ninguém mais tinha olhos para qualquer outro trabalho da exposição. Os vermes se deliciavam com o banquete.
Aí a artista teve a ousadia do improviso, e modificou sua obra ali mesmo, na frente de todos. Entrou lá e despiu o material, para que os críticos pudessem maravilhar-se com o esverdeamento da obra, que irradiava aquele fulgor pelo salão. Todos os urubus estavam invejosos. E pensavam “Como é que eu não tinha pensado nisso antes? Tão óbvio! Visceral!”.

A celebridade que havia recolhido o mendigo das ruas do Centro de Porto Alegre e o levado para a puta que pariu estava orgulhosa, dando entrevistas, dizendo que as matérias-primas de que precisamos estão sempre embaixo do nosso nariz, podem ser encontradas nas ruas, nas sarjetas, nos lixos secos e orgânicos. Ela realmente chegou a falar “matérias-primas”, no plural, como se existisse mais de uma, como se houvesse na vida algo além da coisa única na qual todo o segredo está contido.

Em Paz

A gente tinha ido a um sushi. Ele gostava de sushi. Joguei-me no sofá do quarto e fiquei ali um tempo, vestida, de sapatos, digerindo o jantar e tudo mais. Eu não entendia por que todo mundo parecia estar me tratando diferente, eu não entendia. Senti frio, mas fiquei ali, sentada. Eu via ele tirando suas botas, removendo rapidamente tudo que estava em cima da cama, o laptop, as folhas rabiscadas, roupas e livros; era o que via meu marido fazer: deitar-se de qualquer jeito e desligar o abajur. Fiquei olhando pra cama escura. Fechava os olhos, abria os olhos, nada mudava, então. Eu não o enxergava, não o ouvia se mexer, roncar, nem mesmo respirar. Eu tinha mesmo medo de estar ficando louca. Sentia-me estranha, achava que ele estava muito estranho, pra mim era só isso. Num piscar, nada mais vinha dele, mas eu o queria perto, mais perto. Comecei a sentir uma falta, um rombo dentro de mim, parecia que ele não estava ali, mas ele não tinha se levantado, eu teria escutado; não se levantou nem nada, eu pensava. Acho que cheguei a falar com ele, ou me imaginei falando; ninguém respondeu. Uma angústia, comecei a devanear seriamente que, se acendesse a luz, ele poderia não estar ali, mesmo que eu o tivesse visto deitar-se na minha, na nossa cama. Temia que ele estivesse com a cabeça em outra, tinha medo de estar sendo traída, mas, também, queria que fosse só isso, mesmo; creio que a gente teria dado um jeito. Achei que tinha visto um vulto. Queria abrir a cortina da janela, deixar entrar a luz da lua, enxergar sua silhueta. Queria acender a lâmpada, mas poderia acordá-lo, se é que estava ali dormindo. Queria deitar e tocá-lo, mas sentia pavor de ir tateando a cama, que parecia vazia; temia encontrá-lo, temia não encontrá-lo. Tudo que eu queria fazer me aterrorizava. Queria falar com ele, dizer que estava meio mal, mas, se questionada, talvez nada saberia dizer; e tinha mais medo ainda de que ele nem me perguntasse nada. Havia meses que eu ficava só assim: sentindo aquela presença, de boca praticamente fechada, tomando remédios.
Fiquei com sede, pensei em ir até a cozinha. A casa era grande e velha. Sempre tive medo de atravessar o corredor, mesmo quando a casa estava cheia. Eu queria crianças correndo, chamando-me de “mãe”, “dinda”, “vó”. Antigamente, nós chegávamos dos jantares falando das pessoas com as quais tínhamos nos relacionado, tomávamos mais vinho, na mesma taça; transávamos. Mas, naquela noite fria, nem palavras, nem taça, nem toque, nem mesmo preparar-se pra dormir direito. Pensei ter ouvido claramente um barulho seco na cozinha, um barulho de copo vazio posto na pia. Arrepiei-me. Pensei que eu devia ter cochilado ali no sofá do quarto, só podia. Eu sempre ouvia aquele som no meio da noite. Ele sempre acordava pra ir beber um copo d’água, eu sempre dizia pra ele dormir com um copo do lado da cama, quando ele voltava; ele dizia que gostava de água gelada. Até pensei em comprar um frigobar. Fiquei ali no sofá esperando ele voltar, mas ele não voltara, mesmo. Levantei no escuro e fui tateando as paredes. Fui indo pelo corredor até chegar na sala que havia entre o quarto e a cozinha, onde acendi um abajur. Olhei diretamente pro quadro que eu mesma havia pintado, em boas épocas. Era um cavalo negro selvagem, sem rédeas, galopando em meio a um mar de poeira avermelhada. Olhei pro lavabo; vi que a escuridão do lavabo não me corrompia, como o escuro do quarto. Ele nunca usava o lavabo. Não estava no lavabo, nem na cozinha, nem ele, nem ninguém. Achava que ele devia estar lá no quarto, mesmo; só podia estar lá, eu pensava. Mas não fui pro quarto.
Lembrei das minhas amigas me falando um monte de coisa, gritei “Alex!”; ninguém respondeu. Era a última vez que eu chamava por esse nome. Estava com sono, queria voltar pra cama pra um sono pesado. Pensei em tomar uma pílula pra dormir, ou várias delas pra acabar com tudo de vez; mas não o fiz.

Tomei mais água, olhei o relógio. Num impulso que na hora me pareceu insano, peguei minha bolsa e fui pra casa da Elisa, onde as gurias disseram que estariam. Deixei-o descansar, em paz.

Onde Morava João

Não era de se estranhar que João Roberto viesse a comprar um cofre, com intuito de guardar o seu salário e outras coisinhas de valor. Quando a mulher lhe perguntou a razão daquilo, ele olhou para ela com certo desdém, como se fosse tão óbvio que não precisasse de resposta alguma. Botaria o pequeno objeto por sobre a estante do quarto, detrás da televisão, no compartimento que havia entre os dois armários embutidos onde Lola e João tinham suas roupas, sapatos, etc.
Como uma criança que ganha um brinquedo novo, João tira a caixinha de metal da embalagem e lê as instruções. Pela primeira vez, fecha o seu cofre, com certo entusiasmo, pensando que somente ele poderá dedilhar ali aquela senha, que não é tão óbvia a ponto de alguém desvendá-la, nem tão insana a ponto de ele mesmo esquecê-la. João ainda fica um tempinho contemplando seu próprio segredo. Depois finalmente o afunda por detrás da TV.
Talvez seja importante dizer que João Roberto não confiava em bancos. Sim, ele tinha uma conta bancária, necessária para receber o salário, mas logo no dia em que a grana entrava ele já retirava o que podia de lá para guardar as notas consigo em casa, afinal, não queria se foder como o pai, que havia perdido toda a fortuna da família. Na época, o pai vendeu a estância, botou o dinheiro no banco, mas um dia o dinheiro desapareceu. A família acabou passando meses de penúria, o pai não tomava mais o seu uísque predileto depois das refeições e começou a tomar muita cachaça em vez de comer coisa alguma e o resto da família só comia diariamente arroz puro com no máximo sal e ervas que cresciam como inços ao redor da casinha em que o pobre pai um dia acordara pendurado pelo pescoço diante de uma família aos prantos. Por conta dessas memórias é que João ganhava o salário e tirava do banco o mais rápido possível. Comprara um cofre, para enfim parar de esconder o dinheiro pela casa como um moleque, afinal, já estava fazendo trinta anos, e estava ganhando um bom aumento. Enfim, João não acreditava em valores imaginários, mas sim no cheiro do dinheiro. Somente ele sabia da senha. A esposa fez uma cara, disse que não achava aquilo necessário. A filhinha não gostou do cofre, disse que era feio, muito feio.
Como contador, sob o inevitável vício da contabilidade, João logo supôs que seus valores guardados preenchiam cerca de três por cento do espaço disponível. Pensando inocentemente que não havia razão para que não fizesse isso, João pegou uns eletrônicos e uns álbuns de fotos antigas e depositou em seu cofre, sentindo que assim lhe dava mais utilidade. Afinal, se havia um cofre ali, praticamente vazio, por que então não botar mais coisas dentro dele?
João abriu os olhos e antes mesmo de ir no banheiro arredou a TV para dar uma olhadinha. Achou que parecia um pouquinho maior. Lavou a cara, se vestiu, arredou a TV novamente, teve a mesma impressão. Olhou em volta, a esposa estava na cozinha; então, João aplicou ali sua senha, e deparou-se com aquele vazio. Foi tomar o café da manhã, pensando numa coisa inusitada, na qual nunca havia pensado. Disse à esposa, “Já pensou nesse nome? Café da manhã... É obrigatório que tenha café, no café da manhã?”. A esposa riu, não falou nada e encheu sua xícara com o café mais famoso do país, como se aquilo fosse uma resposta, ou um cala-boca.
À noite, João achou prudente guardar no cofre as joias da esposa. Quando ela viu, já estavam lá. Daí ela não gostou. Disse para o João não fazer mais isso, mas, depois de uma leve discussão, aceitou que suas joias dormissem no cofre. Quis saber qual era a senha, mas João disse que somente ele precisava saber.
No dia seguinte, a mulher pediu uma joia, queria usar o colar banhado a ouro. João perguntou por que ela queria usar aquele colar durante um dia de semana. Lola fechou a cara e foi fazer qualquer coisa que evitasse um conflito. João olhou para o cofre, que estava enorme. Parecia que empurrava a TV. Balançou a cabeça e aprumou-se para mais um dia de trabalho.
Chegando em casa, João entrou no quarto e teve certeza de que estava acontecendo algo estranho quando aplicou sua senha e teve de fato a sensação de que havia preenchido três por cento do cofre, no máximo, como se aquele espaço insólito mantivesse em si uma espécie de verossimilhança interna, sem se modificar perante as preocupações de João. Não tinha nada lá dentro, quase nada, ele pensava. A mulher passou e viu João meio curvado, olhando catatônico para o interior do cofre, e teve um arrepio profundo e gelado.
Lola já estava deitada, quando João se deitou, e tentou relaxar. Não conseguia. Tudo no quarto se inquietava com a sua tensão. Estava ganhando mais, talvez chegasse a ganhar vários milhares por mês, em outra empresa, outro futuro. Mas as pálpebras não queriam ficar fechadas, estava sendo um esforço mantê-las assim. Abriu os olhos como se isso o relaxasse um bocado. Sentou-se na cama. Lola já ficou apreensiva. João Roberto ficou encarando a TV, consciente da inflação que havia por detrás dela. Inevitavelmente, fez o que Lola temia: levantou-se, no meio da noite. Foi até a sala, pegou o que julgava ter maior valor e guardou sob seu segredo, sentindo-se um pouco melhor. Tomou um remedinho, deitou-se, e uma hora conseguiu apagar. Mas Lola não dormira a noite inteira.
A cada dia, João Roberto botava mais coisas dentro daquele cofre, e mais ele parecia vazio por dentro, e falo tanto do cofre quanto de João. Tendo certeza de que o troço crescia despudoradamente, pois já estava bem maior do que a TV, João botou a televisão dentro do cofre, e quando fez isso ainda disse à esposa, “Bom, pelo menos, agora vamos perder menos tempo com essa porqueira”.
Mas aquilo começava a empurrar os armários, que estalavam a ponto de quebrar-se, enquanto João ia socando coisas da casa dentro de seu espaço oculto, como se fosse só por obviedade. Lola disse que deviam tirar as suas joias de lá, a TV, as roupas, disse que deviam esvaziar totalmente aquele buraco negro, isso sim. Mas João não estava nem aí. O que deviam fazer, ele pensava, era tirar o cofre de cima da estante, antes que ele crescesse mais e despencasse de lá. Assim, deu um jeito de botar a grande caixa de metal no chão, sem quebrar nada em seu conteúdo. João já conseguia pôr a cabeça, o braço, todo o tronco, lá dentro.
Um dia a filhinha deles entrou no quarto e viu aquele monstro e não quis mais saber de entrar no quarto dos pais.
João percebeu que sua cama não cabia mais ali. Em breve, não poderia abrir a porta do cofre, por causa da cama. Foi quando teve a ideia de botar a cama dentro do cofre, sim, vou fazer isso, ele pensou. Foi quando, pela primeira vez, João entrou lá de corpo inteiro. Como é amplo, pensa João, quase de pé. A mulher não diz nada, mas seu olhar grita que aquilo não é nada bom.
Percebendo que era a única solução, o casal admitia que todas as coisas que estavam dentro dos armários quebrados fluíssem para seu inevitável destino. Antes de dormir, João tinha o cuidado de encostar a porta sem fechá-la, e, ao saírem, a fechava com a senha que só ele conhecia.
E não só os armários já estavam demolidos, mas também todas as paredes do quarto rachavam ruidosamente. O quarto da filha começou a ficar com o piso todo quebrado, e as paredes cediam, quando João teve certeza de que a melhor solução era trazer a cama da filhinha para dentro daquele espaço seguro. A criança nem chorava mais. E era já necessário que tudo que havia em casa tivesse o mesmo rumo, por única solução, para que seguissem tentando ter uma vida relativamente estruturada, mantendo sempre a ilusão de, um dia, ganhar na loteria, ou alguma coisa assim.
As paredes azuis todas se quebravam, e as telhas laranjas já despencavam de lá quando o cofre finalmente transcendeu à casa, destruindo tudo, ficando maior que ela, muito maior – e agora só o que havia era uma caixa; nem piso, nem teto, nem janela, mas sim uma enorme caixa metálica, rodeadas de entulhos.

Numa noite estrelada, João dedilhou sua senha, e lá entraram. Acenderam as velas, pois luz elétrica não tinha mais havia dias. Enquanto a filha ia para o seu canto, a fim de estudar sua estagnação, a mulher ia passar um café e fatiar uns pães do dia anterior para torrar na panela de ferro. João havia comprado umas fantasias de carnaval, uma cadeira colorida, uma caixinha de música e mais umas coisinhas, mas não comprara alimentos. Quando ele trazia coisas desnecessárias para dentro de casa, Lola já nem o questionava mais, só que naquela noite ela perguntou, “Pra quê isso?”. E João não olhou para ela com aquele tom de obviedade de sempre. Ele descansou os olhos lentamente, como se suas pálpebras fossem as cortinas de um teatro que acaba, e respondeu com um ronco no estômago, diante de uma mesa magra.
Jantou pensando demais sobre a vida, meio aéreo, sua mulher falava com ele e ele respondia de modo vago, quando respondia. Como que por descuido, antes de dormir, bateu a porta do cofre, esquecendo-se de que cofres não têm abertura por dentro.

João se arrepende, mas já não dá mais. As velas se apagam. Nem tudo está perdido, talvez o Dilmar, meu irmão, ou meu colega, o Celso, ou então o meu sobrinho, talvez alguém apareça por acaso e descubra a minha senha, talvez alguém deduza o meu segredo, pensava João, pendulando em silêncio, percebendo que aquilo que ele mais temia antes era exatamente o que agora lhe dava um pingo de esperança, uma esperança rançosa, quase sem oxigênio, mesmo assim, esperança. Mas logo João estava feito estátua, frio e desalmado, enquanto a mulher e a filha choravam desamparadas naquela escuridão.