sábado, 29 de novembro de 2014

O Exorcismo


“A think of beauty is a joy
For ever, Keats exprimiu.
Mas ele próprio sentiu
Quanto essa alegria dói.”
(Manuel Bandeira)
Disse Rabindranath Tagore, “o homem adentra na multidão para afogar o clamor de seu próprio silêncio”, e creio que faz sentido. Eu não tinha algo importante para fazer, e inventei de ir no centro, não lembro para quê. Faz tempo já, esse episódio. Mas, como história, nunca foi tão atual.
Cruzando a Rua da Praia sempre tem coisas interessantes e bizarras acontecendo. Mas eu nunca ia esperar uma coisa daquelas. Eu vinha caminhando, e, enquanto me aproximava daquele pintor, comecei a ouvir ele dizendo “se uma máquina fotográfica pode fazer isso com imagem, como que eu não poderia com sentimento? Eu vou aglutinar tudo que vocês estiverem sentindo de negativo, vou revelar tudo nessa tela, mas ao inverso. Tudo, culpas, medos, dúvidas, me deem, que eu vou transformar isso tudo, gente”, e tinha uma galera rindo do cara. Ele era meio engraçado mesmo, mas meio soturno, baixinho, magrinho, e bem moleque, devia ter no máximo dezoito. Ele tinha um algo estranho, algo comovente, um magnetismo, sei lá. Dizia tipo assim, “qualquer pecado, qualquer coisa que esteja iludindo vocês vai vir parar nessa tela, certo? Eu vou agora exorcizar qualquer sombra que esteja nublando a clareza de vocês, certo?”. Nesse momento, muita gente riu. A palavra “exorcizar” é engraçada por natureza. Eu ri também.
E se calou. Desde o seu primeiro traço, qualquer alma viva ao redor começou a sentir um troço estranho. Dava pra perceber direitinho. Todo mundo pareceu ficar meio abalado, meio perplexo. Eu sentia uma sonolência, com um misto de atenção superapurada. Muito paradoxal. Comecei a exalar uma coisa boa, mas me sentia triste, muito triste, e olhava para os lados para fugir daquele silêncio ensurdecedor que me tomava, e via que estavam todos irradiando aqueles mesmos sintomas. Ele pintava um negócio abstrato, parecia traçar símbolos dentro de símbolos, a imagem não dizia nada, apenas círculos, triângulos, quadrados, e mais círculos. Mas não era o quê ele fazia, e sim como ele fazia. Tinha alguma coisa querendo sair de mim, lembro nitidamente disso, e eu comecei a voar por um mar de emoções, até raiva daquele moleque eu comecei ter, mas logo eu estava entregue. Bem tinha começado a pintar, e logo um velho começou a chorar, e um outro cara também, e logo umas tias se desataram. Só sei que na hora eu sentia uma dor irresistível, não era uma dor ruim, era simplesmente inevitável, algo que já estava em mim, e tinha de vir à tona de qualquer jeito. Quando eu vi, eu estava chorando rios. Todo mundo à volta estava. Eu cheguei mais perto do guri. Tinha muita expressão no rosto. Abertura, magia. Realidade. Ninguém estava entendendo nada, mas era incontestável, o que estava ocorrendo.
E eu sentia que aquilo era um pouco culpa minha, tudo que se passava no mundo, toda a dor da Terra, tudo um pouco culpa minha, mas não era uma coisa pesada de se sentir, não, era uma culpa gostosa,
culpa que já nasce morta, aniquilada pelo perdão,
as lágrimas lavando nossa alma
de dentro pra fora,
sem esforço, sem demora,
aquela dor sendo abraçada e adorada
por todos, uma dor nossa, que dor boa de sentir, de dividir, de compartilhar sem pesar nem escrúpulos, todos juntos no mesmo rio, navegando no mesmo globo andante, o mesmo futuro, todas as lamúrias do mundo, uma só lágrima, uma mera gota d’água, uma expressão primordial, uma mistura de – licença – desculpa – obrigado – de nada – bom dia – eu te amo – plena conivência e reciprocidade, que dor necessária de admitir, todos irmãos, todos responsáveis, tudo que a gente faz influencia nossa Mãe, a culpa é – sem dono, o amor também, somos um só desejo, uma só vontade, assumindo juntos tais pesares,
dissolvemos tudo, ao máximo que se possa,
com profunda devoção e arte,
toda essa água é nossa,
e nosso
é o fardo da humanidade,
a gente pode mudar, nada é obrigatório, é possibilidade, chance, Vida, se o Pai impusesse ordens, que tipo de irmão seria eu? Se não fosse o Seu Silêncio, eu não te amaria tanto.

E, quando o vi assinando aquela obra, que era de todos e de ninguém,

pude ler, claramente – para sempre, José Velasques.