domingo, 29 de maio de 2016

O Fracasso das Coisas Simples


"É hora de os escritores admitirem que nada neste mundo faz sentido.
Só os tolos e charlatões pensam que sabem e compreendem tudo.
Quanto mais estúpidos são, mais amplos supõem ser seus horizontes."
Anton Tchekhov

        Conselho – rima com – calhorda. Rima com placa, com muro pixado. Dar conselho é uma puta falta de respeito, às vezes. Essa é a real.
        Diz o pajé, “Na hora do silêncio, é difícil disfarçar”. O Mar é o maior conselheiro. Fala através do silêncio. Quando o raciocínio para, o coração brota. É pelo vazio que o Mar me limpa. Leva o que há de retido e permite que eu fale comigo mesmo. Proporciona-me o espetáculo natural de se encarar o Oráculo, sem mais tanta obstrução de um ego falso e apodrecido.
        Dá medo. É preciso muita coragem para ser – peito aberto e Olho receptivo. É bem mais fácil trabalhar e comprar uma crônica de autoajuda. E não estou cá sendo sarcástico.
        Talvez um bocado.
        Mas o Mar eu busco onde eu quiser. Insisto nessa causa. Fecho os olhos e aguço os tímpanos à minha Pineal sempre ouriçada, brilhante. Uma Lua dentro de mim. E não dizia o Velho Mestre, “Conheço Deus e o mundo, sem olhar pela janela”? Sim!
Para onde essas ondas retornam? Para dentro de si mesmas! Por isso, tão impressionado em contato com essa imensidão que me respeita tanto. Porque, constantemente retornando, em busca de sua própria Origem, as ondas do mar me ensinam pelo exemplo, e não pelo medíocre, pensado, profano julgamento. O Mar não me julga. E, assim, me VÊ.
        O Mar me lapida. Renova minhas as ideias, levando, para além do ilusório horizonte, teorias, crenças, concepções de realidade. Afasta minhas sombras, deixando-me de frente para o meu próprio reflexo. Nítido. Terrivelmente belo. O Mar e eu. O Mistério encarando o mistério.
        Por isso que dá medo. Nada mais cruel que a compaixão. Mas hoje em dia a moda é não ser assim tão puro. É ter ética, cidadania, pena, bondade, cultura... Nada mais surreal que o Mar – que permite o caos e assim é Ordem, que me recicla, me arranca as máscaras, suga a minha arrogância e meus pré-conceitos. Que medo que eu sinto de me dissolver nisso tudo. Que medo que tenho de deixar de ser quem eu penso que sou.
        E agora, um conselho – enfie os dedos nos ouvidos. Só ao ponto de sentir aquele tampão mágico. Ouça com atenção ao SOM Cósmico. É ou não é o reflexo do Mar aqui e agora? É o seu apito! Seus sinos! Som que me inunda o cérebro quando volto para dentro de mim! Vem ou não vem de dentro de mim, o chiado e o murmúrio constante da vida em mutação?
        Aliás, com uma bobagem de conselho assim eu não irei parar no café da manhã de trabalhador algum. Ninguém dirá “Nossa, que belo conselho, hein?”. Para tal, eu deveria ser mais calhorda e mais sensato. Mais culto. Ninguém dirá “Bah! Que bacana esse cara dizendo que é para eu fechar os olhos e calar a boca! Que legal! Acho mesmo que vou vender tudo que tenho e dar aos pobres! Isso é que é realização de vida!”.
        Só que eu não quero um textinho que ajude a ser feliz! Quero é sondar as depressões da Terra. Não é por desespero que acesso aos poços profundos da humanidade, aliás, é por Esperança. Enquanto um no mundo estiver afogado, todos inspiramos agonia. Não quero um incentivo, um abrigo, que me faça esboçar um sorriso amarelo. Quero é um desconselho, uma boa questão que me puxe o tapete! Quero sentir o magnetismo da rocha na sola do pé. Enquanto um no mundo estiver com frio, todos temos pressa. Não quero letrinhas que confortem, rechacem! Quero é o arroubo, quero o ronco do vazio! O silêncio ensurdecedor do ouvido tampado. Enquanto um no mundo estiver com fome, fome.
        Pior que não consigo me conter de expor uma opinião mundana e atual. Estamos, mais do que nunca, vivendo a inversão completa de valores. O fracasso das coisas simples. Quanto mais idiota – melhor. Quanto mais egoísta tu é, mais sucesso, e mais orgulho sentem teus pais. Quanto mais genial e genuíno é o filho, mais insatisfação. E dizia o rasta, “Many people will fight you down, when you see Jah Light”. Se tu não é assim tão idiota, cuidado com eles. Não tenta expor ao Sol quem dorme profundamente na escuridão. Há de ficar indignado...
        Então tá, outro conselho – Vai comer aipim orgânico! E broto de feijão da Família Hattori! Talvez assim tu compreenda enfim que bons conselhos não vêm com código de barra.
        Mas receio que possa parecer estranho que eu queira ocupar a atenção de um leitor sério falando sobre o poder da ausência de palavras. Te mandando enfiar os dedos nos ouvidos. Exaltando a terapia do silêncio. Que é de graça. Só que – o que há de estranho nisso? Não prescrevem umas senhoras em jornais e revistas umas crônicas com opiniões e conselhos de que ninguém precisa? Isso não é estranho? Pois eu imito as senhoras. Quem sabe, até eu mesmo sou uma senhora cronista e só me oculto aqui sob um pseudônimo masculino.
        E não me leve a sério. Eu sou uma bobagem. Aliás, nesse parágrafo anterior eu imitei o Tchekhov. Despudoradamente.

"Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico.
Hoje, até o gênio se finge de imbecil.
Nada de ser gênio, santo, herói, ou simplesmente homem de bem.
Os idiotas não os toleram."
Nelson Rodrigues


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